sábado, 3 de setembro de 2016

CONHECEMOS O VERDADEIRO TEXTO DA BÍBLIA?

Por Vinicius Moura -


O Velho Testamento foi escrito entre mais ou menos 1.450 e 200 AC (Antes de Cristo). O Novo Testamento foi todo escrito na segunda metade do século I da nossa era. Assim, passaram-se muitos séculos entre o momento em que os textos da Bíblia foram escritos até hoje.
Evidentemente não dispomos mais dos originais da Bíblia. O que temos são cópias de cópias de cópias dos originais, a maior parte dessas cópias feitas manualmente. Para o Velho Testamento, as cópias mais antigas hoje disponíveis datam de 2.100 anos atrás. Já para o Novo Testamento, as cópias mais antigas tem cerca de 1.700 anos.
Acabei de me referir a cópias manuais porque durante a maior parte do tempo os textos da Bíblia foram disseminados dessa forma. Somente cerca de quinhentos anos atrás apareceu o recurso da impressão, que mudou totalmente as regras do jogo. Esse novo recurso, além de ser muito mais eficiente do que o método manual, garante a integridade do texto quando copiado. Isto porque copistas podem, até sem querer, introduzir erros (por exemplo, trocar uma palavra por outra) ao fazer seu trabalho, coisa que não acontece quando máquinas imprimem cópias de um texto.
Assim, durante boa parte da sua história, os textos bíblicos foram disseminados através de cópias manuais, bem mais sujeitas a erros e nasce aí a dúvida quanto à integridade dos textos de que dispomos hoje. Será que esse processo de múltiplas e sucessivas cópias manuais não acabou por “corromper” o conteúdo original? Será que o texto atual é realmente igual ao original?  
A resposta para essas perguntas é fundamental pois acreditamos ser a Bíblia a Palavra de Deus e assim reconhecemos no seu texto uma autoridade inigualável. Mas tal autoridade está restrita ao conteúdo original, aquele que acreditamos ter sido inspirado pelo Espírito Santo. Se esse conteúdo foi alterado, mesmo que sem querer, por conta do processo de sucessivas cópias manuais ao qual me referi acima, o conteúdo atual não tem mais a mesma autoridade.
Em outras palavras, não poderíamos usar o conteúdo da Bíblia de que dispomos hoje como nossa regra de fé por ela não mais ser aquilo que foi inspirado pelo Espírito Santo. Simples assim. E é essa a crítica que muita gente faz ao cristianismo.
Mas eu quero tranquilizar você: há muitos argumentos fortes apoiando a integridade do conteúdo que hoje temos da Bíblia. Não tenho espaço para discutir todos eles aqui, assim, vou me concentrar em apenas dois deles.
Primeiro, as cópias eram feitas com muito cuidado porque o texto da Bíblia era considerado sagrado pelos copistas – nenhum escriba bem intencionado iria querer introduzir erros num conteúdo atribuído a Deus. 
E é fácil comprovar que isso é verdade: basta comparar o conteúdo de dois conjuntos de cópias de determinados textos da Bíblia feitos em momentos diferentes da história. Quanto maiores forem as diferenças entre os dois conjuntos, maior terá sido a “contaminação” (introdução de erros propositais ou não) durante o processo de fazer cópias.  
Ora, a prática comprova que o processo de “contaminação” é mínimo, desprezível mesmo. Por exemplo, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, foram encontrados alguns manuscritos perto do Mar Morto – tratava-se de uma cópia quase completa do conteúdo do Velho Testamento feita cerca de 2.000 anos antes. Quando o conteúdo dessa cópia foi comparado com o atual do Velho Testamento, ficou evidente que as diferenças eram mínimas. Mais de dois mil anos fazendo cópias de cópias de cópias não foram capazes de corromper o texto da Palavra de Deus. 
As diferenças se resumiam a poucas palavras aqui ou ali e nenhuma delas acaba por gerar dúvida sobre os ensinamentos fundamentais do Velho Testamento.
Segundo, existem mais manuscritos do conteúdo da Bíblia do que de qualquer outro texto antigo – por exemplo, há cerca de 24.000 cópias manuais do Novo Testamento e apenas sete dos textos do grande filósofo Aristóteles. 
Ora, o processo de fazer cópias manuais gera “famílias” de manuscritos. Isso porque se alguém introduz um erro numa determinada cópia, esse mesmo erro será reproduzido nas novas cópias que vierem a ser feito a partir desse manuscrito modificado. E evidentemente somente as cópias feitas a partir do mesmo manuscrito modificado, ou seja somente as cópias pertencentes a uma mesma “família”, irão conter o mesmo erro. 
Assim, quanto mais cópias de um determinado conteúdo existirem, mais “famílias” de cópias dele irão existir. E é evidente que os erros presentes em cada uma dessas “famílias” de cópias nunca serão os mesmos, pois terão nascido de erros no trabalho de copistas diferentes, cometidos em momentos distintos da história. 
E comparando entre si o conteúdo de “famílias” distintas de cópias será possível identificar exatamente onde estão os erros de cada uma delas. Ou seja, existe um processo para controlar a qualidade de uma determinada cópia do texto bíblico. Basta compará-lo com o conteúdo de outras “famílias” de cópias e identificar onde a cópia em análise difere de todas as demais – aí estão os eventuais erros dela. 
Naturalmente, quanto mais manuscritos de determinado conteúdo existirem, mais efetivo será esse tipo de controle. Como o Novo Testamento conta com 24.000 manuscritos, é possível fazer um controle de qualidade dele muito melhor do que da obra de Aristóteles, que conta com apenas sete conjuntos de cópias e não há como questionar essa argumentação.
E é interessante notar que praticamente nenhum(a) estudioso(a) de texto antigo questiona a integridade do conteúdo da obra de Aristóteles disponível hoje em dia, mas muitos(as) têm dúvida sobre a Bíblia, o que demostra claramente o preconceito existente. 
O fato é que o controle de qualidade sobre o conteúdo disponível da Bíblia é muito efetivo e isso também transmite grande segurança quanto à integridade do conteúdo bíblico de que dispomos hoje. 
E tanto esse controle funciona bem que nos exemplares atuais da Bíblia os editores do texto costumam indicar os pontos de dúvida no seu conteúdo, o que é feito colocando as palavras do texto questionadas entre colchetes.
Concluindo, nenhum texto antigo foi tão avaliado pelos mais diversos especialistas do que a Bíblia. E o conteúdo dela de que dispomos hoje passou nesses testes com louvor – as discrepâncias encontradas são muito pequenas e nenhuma envolve um aspecto essencial da nossa fé. 
É claro que isso não quer dizer que não continue a haver quem desconfie e questione o conteúdo da Bíblia de que dispomos – como comentei antes, existem muitos preconceitos e esses são quase impossíveis de eliminar.
Mas podemos ter certeza de que dispomos de um texto confiável, que realmente preserva a autoridade do original inspirado pelo Espírito Santo e pode sim ser usado como regra de fé para nossas vidas. 
Com carinho
http://www.sercristao.org/2016/06/07/conhecemos-o-verdadeiro-texto-da-biblia-2/

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

QUAL O CONTEÚDO VERDADEIRO DO NOVO TESTAMENTO?


Por Vinicius Moura -

O “mercado” de livros sobre a Bíblia está cheio de relatos alegando que existem outros evangelhos, além dos quatro incluídos no Novo Testamento, e que se eles tivessem feito parte do Cânone, a história e a doutrina do cristianismo seriam totalmente diferentes. 
Por trás disso tudo, além de enormes interesses comerciais, pois livros que criticam o cristianismo vendem muitíssimo bem, existem também algumas questões que precisam ser consideradas com seriedade. 
Os críticos do cristianismo alegam que a relação de livros incluídos no Novo Testamento somente
foi definida mais de dois séculos depois do ultimo livro (Apocalipse) ter sido escrito. E como o processo de escolha foi demorado, ele teria sofrido muitas influências (inclusive políticas, devidas ao Imperador romano Constantino) que distorceram o resultado final. 
Alegam esses(as) estudiosos(as) que por causa dessas influências indevidas, teriam sido deixados de fora do Novo Testamento textos muito importantes, como o Evangelho de Tiago ou o Evangelho de Judas. 
Mas será que isso aconteceu mesmo? E se não foi assim, quem fez a escolha sobre o que seria incluído?  
A autoridade apostólica   
A resposta cristã tradicional para essas perguntas é afirmar que o Espírito Santo guiou as
pessoas que fizeram essa escolha, garantindo que a Bíblia tivesse exatamente o conteúdo determinado por Deus. 
Eu acredito nisso, mas essa não é uma boa resposta para aqueles(as) que não são cristãos(ãs). Afinal, há aí um raciocínio circular, uma falha de lógica: sabemos que a
Bíblia foi inspirada pelo Espírito Santo porque isso está escrito nela. Em outras palavras, usamos o que está escrito na Bíblia para validá-la, o que é incoerente. É preciso encontrar uma resposta melhor, que não fuja à lógica e ela, felizmente, existe. 
No final do primeiro século da nossa era, quando o último livro do Novo Testamento foi escrito, as pessoas tinham acesso, nas suas igrejas locais, aos textos mais populares do Novo Testamento, como os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e algumas cartas de Paulo (como Romanos ou 1 Coríntios). 
Mas também estavam disponíveis para as pessoas outros textos, que hoje nem estão no Novo Testamento, como o “Pastor de Hermas”. Como ainda não havia uma relação canônica de livros integrantes do Novo Testamento, havia muito risco de serem ensinadas doutrinas conflitantes, como de fato aconteceu. 
Mas quem tirava a dúvida das pessoas quanto à doutrina certa? A resposta tem a ver com a chamada “autoridade apostólica”. Os apóstolos tinham recebido seu ensinamento diretamente de Jesus e tinham autoridade espiritual inconteste no meio cristão por causa disso. 
A autoridade especial atribuída pelos(as) cristãos(ãs) aos apóstolos pode ser percebida no Atos dos Apóstolos (capítulo 1 versículos 21 a 26 e capítulo 15), em 1 Coríntios (capítulos 4 e 5) ou ainda em Gálatas (capítulo 1, versículos 1 a 12). Esse fato tem, portanto, farta atestação histórica.
Quando os apóstolos morreram, ficaram no seu lugar seus discípulos diretos, chamados de “Pais da Igreja”. E a autoridade dessa segunda geração de líderes cristãos vinha dos seus mestres, os apóstolos. 

Coube aos Pais da Igreja, ensinar e guiar as pessoas na direção da doutrina certa e foram eles que lideraram o processo de escolha de quais livros seriam ou não incluídos no Novo Testamento.

O critério para inclusão
O critério usado pelos Pais da Igreja para incluir um texto no Novo Testamento foi sua relação direta com algum apóstolo. Quando era possível definir que o texto tinha sido escrito por algum deles ou por um de seus discípulos reconhecidos, ele tinha o “selo” de autoridade e era incluído. Caso contrário, não. 
E é importante lembrar que Paulo sempre foi incluído no restrito grupo de apóstolos, pois o entendimento geral era que ele tinha sido instruído diretamente por Jesus, através de visões, mesmo não tendo convivido diretamente com Ele.
Vários textos foram imediatamente aceitos por toda a comunidade cristã como canônicos. Esse é o caso dos quatro evangelhos canônicos, atribuídos a apóstolos (Mateus e João) ou a discípulos muito chegados a eles (João Marcos e Lucas). O próprio apóstolo Pedro, num dos seus textos, reconheceu que os escritos de Paulo, embora difíceis de entender, eram canônicos (2 Pedro capítulo 3, versículos 15 e 16). 
Isso significa que a controvérsia entre o que deveria ter sido ou não incluído no Novo Testamento não foi tão grande como os(as) críticos(as) do cristianismo querem fazer crer. A discussão ficou restrita a poucos livros, como p. ex. o Apocalipse e a carta de Judas (que entraram); o Pastor de Hermas e a Didaque (que não entraram).
E na discussão sobre se um texto era canônico ou não, o critério da origem apostólica sempre foi invocado. Veja o que um dos líderes da igreja, falou por volta do ano 150, sobre o “Pastor de Hermas”: 
“[O autor] Hermas escreveu bem recentemente, na nossa época, na cidade de Roma… Logo, embora o texto deva ser lido, sem dúvida ele não deve ser lido publicamente para o povo da igreja pois não pode ser contado entre os profetas (seu número já está completo) nem entre os apóstolos (pois já passou o tempo deles).”
Outro líder da igreja, Serapião, disse por volta do ano 200: 
“Nós, irmãos e irmãs, recebemos Pedro e os demais apóstolos como teríamos recebido o próprio Cristo. Mas aqueles escritos que são falsamente atribuídos aos seus nomes, nós somos cuidadosos em rejeitar, sabendo que nenhum desses escritos deveria ter sido passados para nós.”
A questão debatida não era se o conteúdo de determinado texto incomodava essa ou aquela pessoa. Se determinado texto tinha ou não apoio do Imperador. Nada disso. Os(as) críticos(as) estão errados. 
A preocupação sempre foi a mesma: saber se o texto em questão tinha sido escrito por quem tinha autoridade espiritual, evitando fraudes. Só isso.
E foi por essa causa que os evangelhos de Tiago e Judas ficaram de fora: eram fraudes pois foram escritos muito mais tarde, não podendo ser atribuídos aos próprios apóstolos ou aos seus discípulos diretos. E o mesmo aconteceu com o Pastor de Hermas, a Didaque e alguns outros textos.
Eu não tenho espaço aqui para discutir a história de cada livro incluído no Novo Testamento – explicar quem escreveu, quando e dar as razões pelas quais foi aceito no Cânone. Mas há excelentes textos didáticos que fazem exatamente isso – se você estiver interessado(a), me escreva que eu terei prazer em passar as referências.
O que importa aqui é que você saiba haver razões de sobra para que cada um dos livros tenha sido incluído no Novo Testamento, mesmo aqueles que foram alvo de alguma controvérsia, como o Apocalipse.
É claro que acreditamos que todo esse processo foi inspirado e dirigido pelo Espírito Santo – isso nos traz ainda maior certeza quanto à correção do que aconteceu. Mas não é preciso acreditar nisso para defender o Novo Testamento, conforme expliquei acima.
Portanto, pode confiar na sua Bíblia: ela é a verdadeira Palavra de Deus. E você tem em mãos o texto que precisava ter, nem mais e nem menos.
Com carinho
http://www.sercristao.org/2015/09/09/qual-o-conteudo-verdadeiro-do-novo/